Tendências globais de family offices

A Ascensão do Investimento ESG nos Family Offices

Foto de Andreea Avramescu (@minakko) no Unsplash

Os family offices já não encaram os investimentos ambientais, sociais e de governança (ESG) como um mero complemento para a reputação. Para um número crescente de famílias abastadas, o ESG tornou-se parte integrante da construção de carteiras, da gestão de riscos e do planejamento patrimonial intergeracional.

Essa mudança não é uniforme. Alguns family offices continuam céticos em relação aos selos ESG, especialmente após vários anos de reações políticas adversas, dados inconsistentes e preocupações com o greenwashing. No entanto, a tendência é clara: as considerações de sustentabilidade estão sendo cada vez mais integradas às decisões de investimento, especialmente quando as famílias adotam uma visão de longo prazo em relação à preservação do capital.

De acordo com o UBS, cerca de 391 family offices em todo o mundo já alinham, pelo menos em parte, sua estratégia de investimento aos critérios ESG. Esse número não indica uma transformação radical do setor. No entanto, mostra que os critérios ESG foram além da filantropia e passaram a fazer parte das decisões dos comitês de investimento.

Dos valores à gestão de riscos

Os family offices têm sido, tradicionalmente, investidores conservadores. Seu mandato costuma ir além do mero desempenho: preservar o capital, proteger o patrimônio, gerenciar a sucessão e manter a flexibilidade ao longo das gerações.

Isso torna o debate sobre ESG ainda mais relevante, e não menos. Os riscos climáticos, a pressão regulatória, a exposição da cadeia de suprimentos e os danos à reputação não são mais preocupações abstratas. Eles podem afetar diretamente o valor dos ativos, desde o setor imobiliário e de infraestrutura até o capital privado e os mercados de capitais.

Para muitas famílias, o ESG está, portanto, deixando de ser uma questão de posicionamento moral para se tornar, cada vez mais, uma forma de identificar riscos que a análise financeira convencional pode ignorar. A eficiência energética, a qualidade da governança, as normas trabalhistas e a resiliência climática têm um peso cada vez maior na avaliação do valor a longo prazo.

A próxima geração muda o rumo da conversa

A pressão mais forte geralmente vem de dentro da própria família. Os herdeiros da Geração Y e da Geração Z tendem a questionar se o capital reflete os valores da família, e não apenas se gera retorno financeiro.

Isso não significa que os membros mais jovens da família sejam indiferentes ao desempenho. Pelo contrário, eles tendem a ver a sustentabilidade e a disciplina financeira como aspectos interligados. Para eles, evitar ativos ociosos, governança deficiente ou setores vulneráveis às questões ambientais pode fazer parte de uma gestão prudente do patrimônio.

Essa mudança geracional está transformando o papel dos family offices. Espera-se que as equipes de investimento expliquem não apenas quais são os ativos da carteira, mas também por que foram escolhidos. A prestação de contas, a transparência e a medição do impacto estão, portanto, ganhando cada vez mais importância.

A Europa dá o tom

A regulamentação é outro fator determinante. Na Europa, as regras de divulgação de informações ESG tornaram-se mais rigorosas, embora o quadro regulatório continue complexo e, por vezes, contestado. Gestores de ativos, bancos e consultores estão sob pressão para fornecer informações mais detalhadas sobre riscos de sustentabilidade e classificações de produtos.

Os family offices nem sempre são regulamentados da mesma forma que os investidores institucionais. No entanto, eles são afetados indiretamente por meio de seus bancos, gestores de fundos e consultores externos. Consequentemente, muitos estão sendo levados a adotar um ambiente de relatórios ESG mais estruturado.

Isso representa tanto um desafio quanto uma oportunidade. Famílias com carteiras fragmentadas, vários depositários e exposição ao mercado privado muitas vezes enfrentam dificuldades para obter uma visão consolidada de seu perfil de sustentabilidade. Aquelas que investem em uma infraestrutura de dados mais eficaz podem obter uma visão mais clara dos riscos, da concentração e da exposição a longo prazo.

Os mercados privados são fundamentais

A integração de critérios ESG é particularmente relevante nos mercados privados, onde os family offices costumam ter mais influência do que no mercado de ações de empresas de capital aberto. Investimentos diretos, participações imobiliárias, capital de risco e private equity permitem que as famílias definam padrões de governança, expectativas de prestação de contas e prioridades estratégicas de forma mais direta.

Energia renovável, agricultura sustentável, edifícios energeticamente eficientes, saúde, educação e tecnologia climática estão entre as áreas que atraem capital familiar de longo prazo. Esses setores são atraentes não apenas por seu perfil de sustentabilidade, mas também por estarem ligados a tendências econômicas estruturais.

O desafio é a disciplina. Os investimentos com certificação ESG não são automaticamente bons investimentos. Os family offices ainda precisam de uma due diligence rigorosa, premissas realistas de retorno e padrões claros de prestação de contas. O setor aprendeu que boas intenções não substituem o bom senso no investimento.

O problema dos dados

Um dos principais obstáculos continua sendo a medição. Os dados ESG são inconsistentes, as agências de classificação frequentemente divergem e os relatórios do mercado privado podem ser incompletos. Para os family offices com estruturas patrimoniais complexas, o problema é ainda mais grave.

Uma carteira consolidada pode incluir títulos cotados em bolsa, fundos de private equity, participações diretas em empresas, imóveis, obras de arte, dinheiro, iniciativas filantrópicas e negócios em operação. É difícil avaliar a exposição a critérios ESG em uma estrutura como essa.

É por isso que a tecnologia está se tornando cada vez mais importante. As plataformas de gestão de patrimônio que agregam ativos financeiros e não financeiros podem ajudar as famílias a entender onde o capital está alocado, como os riscos estão distribuídos e em que áreas os objetivos de sustentabilidade estão sendo alcançados ou não.

Para os family offices, o futuro do ESG dependerá menos de slogans e mais da qualidade dos dados, da disciplina na prestação de contas e da governança.

O que os Family Offices devem fazer a seguir

Os family offices que estejam considerando uma integração mais profunda dos critérios ESG devem começar por definir claramente seus objetivos. A primeira questão não é qual produto ESG adquirir, mas sim o que a família deseja alcançar.

Algumas famílias podem priorizar a redução dos riscos climáticos. Outras podem se concentrar no impacto, no alinhamento filantrópico, nos padrões de governança ou em evitar riscos à reputação. A estratégia de investimento deve seguir o mandato da família, e não a última tendência do mercado.

Algumas medidas práticas incluem:

  • definir as prioridades ESG da família;

  • mapear a exposição atual da carteira;

  • melhorar a coleta de dados entre bancos, fundos e ativos privados;

  • estabelecer normas de prestação de contas para gestores externos;

  • envolver a próxima geração nas discussões sobre investimentos;

  • distinguir claramente entre integração ESG, investimento de impacto e filantropia.

Essa distinção é importante. A integração de critérios ESG diz respeito principalmente a riscos e oportunidades. O investimento de impacto visa gerar resultados sociais ou ambientais mensuráveis, além de retornos financeiros. A filantropia busca objetivos não comerciais. Confundir os três conceitos pode levar a uma má governança e a expectativas irrealistas.

Perspectivas: O ESG se torna mais seletivo

É provável que a próxima fase do investimento ESG nos family offices seja mais seletiva e mais exigente. O discurso simplista de “ter sucesso fazendo o bem” já não é suficiente. As famílias querem evidências, comparabilidade e prestação de contas.

Isso não enfraquece os argumentos a favor do ESG. Pelo contrário, os reforça. À medida que o mercado amadurece, compromissos vagos darão lugar a abordagens mais disciplinadas, centradas em riscos relevantes, resultados mensuráveis e preservação do capital a longo prazo.

Para os family offices, o ESG já não é apenas uma questão de reputação. Está se tornando uma questão de governança: como o patrimônio é administrado, como o risco é compreendido e como o capital é preparado para a próxima geração.

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